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sábado, 14 de julho de 2012

Ideologia em vez de competência: critério do governo para a importação de médicos cubanos

Isolado na América Latina até o advento do Foro de São Paulo – segundo declarou Lula em vídeo-mensagem à 18ª. versão do referido foro, realizado em Caracas (vide abaixo) –, o regime comunista cubano está em vias de “exportar” para o Brasil, entre janeiro de fevereiro de 2013, nada menos que 1.500  médicos, para atender às regiões do interior do País. A escolha dessa data teria sido para não repercutir no resultado das eleições municipais de 2012.


O principal “mercado consumidor” de tais médicos – cuja capacidade para o exercício da profissão é mais do que duvidosa, como se verá, ao passo que sua formação ideológica não deixa lugar a nenhuma dúvida – foi até o momento a Venezuela chavista, onde não se sabe bem até que ponto eles se restringiram a simples atendimentos médicos e com que resultados.

Contudo, nos termos do referido vídeo-mensagem de Lula, no qual ele se jacta da militância hegemônica do PT e de seus aliados cubanos e bolivarianos para a implantação da “democracia” em todo o continente latino-americano (a Alemanha comunista também se chamava República Democrática Alemã – DDR), a pergunta que se depreende é se os tais 1.500 médicos não serão agentes comunistas destinados a colaborar na consecução de tal fim.

Tanto mais quanto ficou patente aos olhos de todos a inconformidade do bloco petista-bolivariano em face do impeachment inteiramente legal do ex-presidente paraguaio Fernando Lugo, a exemplo do que ocorrera em Honduras em relação a Manuel Zelaya, quando o então ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, declarou que era algo inadmissível, porque a direita não podia ter mais vez na América Latina. Que democracia sui generis é essa, que só admite a esquerda?

Existe grande preocupação de que Hugo Chávez não se reeleja pela terceira vez ao cargo (sua nova candidatura foi obtida graças a mudanças arbitrárias feitas por ele na Constituição, sem que a esquerda protestasse – a mesma esquerda que gritou furiosa quando Álvaro Uribe quis fazer o mesmo na Colômbia, só que com fortíssimo respaldo popular) –, e foi para evitá-lo que o internacionalismo petista deslocou para a Venezuela a equipe de marketing de João Santana, sob os protestos da opinião pública, que reclama de interferência externa.

Não se sabe se além do João marqueteiro e de outro João – o “João de Deus”, curandeiro goiano que teria viajado à Venezuela em avião da FAB para tratar de Chávez –, a solidariedade petista enviará também, a exemplo do que ocorreu nas eleições anteriores do período chavista, as urnas eletrônicas brasileiras, as quais, não se sabe bem por que, Hugo Chávez, responsável pelo “excesso de democracia” em vigor na Venezuela, como disse Lula, quis introduzir sorrateiramente em Honduras antes da queda de Zelaya.

Voltando ao tema de Cuba – para cuja sobrevivência o regime chavista foi até aqui imprescindível –, cumpre lembrar que tudo, menos a “exportação” de médicos, poderia ser o resultado imediato da vultosa soma de dinheiro destinada pelo governo da presidente Dilma para a reforma do Porto de Mariel.

Para o leitor aquilatar a qualidade do “produto” a ser importado pelo governo petista, finalizo transcrevendo estes dois trechos de um artigo publicado por “O Estado de S. Paulo” em 3 de janeiro de 2011, sob o título de “Médicos reprovados”:

“Os resultados do projeto-piloto criado pelos Ministérios da Saúde e da Educação para validar diplomas de médicos formados no exterior confirmaram os temores das associações médicas brasileiras. Dos 628 profissionais que se inscreveram para os exames de proficiência e habilitação, 626 foram reprovados e apenas 2 conseguiram autorização para clinicar. A maioria dos candidatos se formou em faculdades argentinas, bolivianas e, principalmente, cubanas.

“[...] As faculdades cubanas – a mais conhecida é a Escola Latino-Americana de Medicina (Elam) de Havana – são estatais e seus alunos são escolhidos não por mérito, mas por afinidade ideológica. Os brasileiros que nelas estudam não se submeteram a um processo seletivo, tendo sido indicados por movimentos sociais, organizações não governamentais e partidos políticos. Dos 160 brasileiros que obtiveram diploma numa faculdade cubana de medicina, entre 1999 e 2007, 26 foram indicados pelo Movimento dos Sem-Terra (MST). Entre 2007 e 2008, organizações indígenas enviaram para lá 36 jovens índios.”

segunda-feira, 23 de abril de 2012

A Torre de Babel das Américas



A bela cidade de Cartagena, na Colômbia, fortemente impregnada pela influência da arquitetura colonial espanhola de Felipe II, foi palco de um evento patrocinado pela OEA – a VI Cúpula das Américas, que reuniu 31 chefes de Estado entre os dias 14 e 15 de abril de 2012.

Brilharam pela ausência, além de Hugo Chávez, em tratamento de câncer no “paraíso” cubano, seus colegas ideológicos Rafael Correa, do Equador, e Daniel Ortega, da Nicarágua, estes dois últimos em solidariedade com Cuba, que não tem assento no evento.

Quem queira encontrar uma metáfora para exprimir o que se passou em Cartagena, cujo lema era “Conectando as Américas: Sócios para a prosperidade”, nada mais adequado que a da Torre de Babel, pois só houve desencontros.

Na foto final da IV Cúpula das Américas, realizada em 2005, todos usavam paletó e gravata, e na V (2009), as únicas exceções foram Hugo Chávez, Evo Morales e Daniel Ortega

Pequeno detalhe. Se houver uma próxima Cúpula “para a prosperidade” – o que não é certo –, não se sabe sequer como estarão vestidos os homens. Pois se na foto final da IV, realizada em 2005, todos usavam paletó e gravata, e na V (2009), as únicas exceções foram Hugo Chávez, Evo Morales e Daniel Ortega, na de 2012 apenas sete presidentes usavam paletó e gravata, enquanto o dobro estava simplesmente de camisa.

Ainda neste sentido, a VI Cúpula iniciou-se com uma partida de futebol. Não se sabe se houve paralelamente uma de vôlei para as mulheres ou se estas resolveram engrossar os times dos homens, pois hoje em dia tudo é possível. Mas a Cúpula propriamente dita – para a qual deveria pelo menos ter sido recomendado aos chefes de Estado um traje condigno – foi inaugurada pelo socialista chileno José Manuel Insulza, secretário-geral da OEA, seguida da execução do hino nacional do país anfitrião por uma cantora popular colombiana.

Quanto aos principais temas debatidos, não houve consenso, pois apesar de serem 31 os países representados, prevaleceu a opinião daquele que muitos teimam em dizer que estaria a ponto de ser superado pelo Brics: os EUA. Assim, ao se exigir do esquerdista Obama em ano eleitoral a inclusão de Cuba na próxima Cúpula, a legalização das drogas, e ainda o reconhecimento de que as Malvinas pertencem à Argentina, a resposta foi um peremptório não. E tudo “ficou como dantes no quartel de Abrantes”.

A presidente Cristina Kirchner voltou para a Argentina antes da hora, apressada talvez em assinar o decreto de desapropriação da empresa petrolífera espanhola Repsol, ampliando assim a briga que já mantém com a Inglaterra a propósito das Malvinas e atraindo a antipatia, não só desses dois países, mas de todo o bloco da União Europeia. Também sem explicar o motivo, a presidente Dilma cancelou a reunião que tinha marcada com o presidente colombiano Juan Manuel Santos.

A VI Cúpula terminou sem uma declaração conjunta e com a possibilidade de não ter sequência, pois a presença de Cuba (sócia pouco crível para a prosperidade) foi condição sine qua non posta pela maioria dos chefes de Estado para haver outras. O evento foi ainda obscurecido pelo escândalo perpetrado por membros da equipe de segurança do presidente Obama, que apesar de não estarem em Brasília, ignoravam que também lá havia caseiro.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

De Henrique IV a Raul Castro

Na esteira dos acontecimentos relacionados com a recente visita de Bento XVI a Cuba, a imprensa noticiou que em atendimento a um pedido do Sumo Pontífice, o regime comunista e ateu de Cuba decidiu decretar que a próxima Sexta-Feira Santa será feriado na ilha-prisão.

Para quem conhece a índole do regime comunista, negador de todos os Mandamentos do Decálogo e da Lei Natural, essa concessão do tirano Raul Castro nos remete ao fato histórico sucedido em 25 de julho de 1593, quando o rei calvinista Henrique IV, para fazer-se aceitar pelos católicos franceses, teria se “convertido” por segunda vez ao catolicismo,
afirmando: “Paris vale bem uma Missa”.

Em fidelidade não só às raízes igualitárias herdadas do protestantismo, mas também às táticas que os fautores do erro costumam usar ao longo da História para conseguirem prevalecer, Raul Castro bem poderia agora dizer: “Cuba vale bem uma Sexta-Feira Santa”.

E enquanto nesta nossa “civilização da imagem” as palavras que Bento XVI pronunciou sobre Cuba tenderão a cair no olvido, o mesmo não sucederá com as suas vistosas fotografias com Raul e Fidel Castro, as quais, negadas aos dissidentes, que queriam posar ao lado do Sumo Pontífice, continuarão sendo exploradas largamente pela propaganda comunista para impressionar em seu favor o infinito número de estultos que imaginam que a essência do comunismo mudou ou pode algum dia mudar.

terça-feira, 27 de março de 2012

O Papa, uma oportunidade única para a nova Cuba

Médico Oscar Biscet,
preso em 1998 por
palestra em defesa
do direito à vida.
O jornal madrilense de orientação socialista El País, a cujo correspondente em Roma foi negado visto para cobrir a viagem de Bento XVI a Cuba, estampou na sua edição online de ontem, 26-03-2012, o artigo abaixo, que julgo oportuno reproduzir na íntegra, responsabilizando-me pela tradução do mesmo.

TRIBUNA
O Papa, uma oportunidade única para a nova Cuba

A presença do Papa Bento XVI representa uma oportunidade única para que o povo cubano se manifeste e exerça pressão sobre a tirania

OSCAR ELÍAS BISCET, “El País”, Madrid, 26 de março de 2012

O Papa Bento XVI chega hoje a Cuba. Trata-se da primeira visita papal a meu país em mais de uma década. Nestes dias Sua Santidade se reunirá com os dois irmãos Castro e seus subordinados, além de trazer uma mensagem espiritual ao povo cubano.

Muitos são os fatores que entrarão em jogo. É uma oportunidade única para que o líder da Igreja Católica use seu prestígio e influência em apoio dos oprimidos e ajude o povo cubano a conquistar sua liberdade e estabelecer a democracia.

Meu país continua estando manejado por um regime brutal que oprime o povo e viola sistematicamente suas liberdades básicas. A ditadura é uma relíquia da Guerra Fria, mas sem uma pressão internacional forte há poucas esperanças de mudança.

Cuba é um Estado policial, no qual os agentes do Governo perseguem e espionam aqueles que defendem os direitos humanos. Os que procuram uma mudança política pacífica são agredidos, detidos e encarcerados arbitrariamente com base em infrações orwellianas, por exemplo, por “falta de respeito para com os símbolos pátrios” ou por “insultar os símbolos da pátria”.

A segurança do Estado vigia de perto a vida diária dos cidadãos e intervém na correspondência, nas ligações telefônicas e nos correios eletrônicos. Não há imprensa livre e o único jornal é o da ditadura. Os jornalistas independentes que desafiam a propaganda estatal são ameaçados e presos.

Nossas reivindicações são simples: respeito à liberdade de expressão, de associação e de reunião, e eleições multipartidárias onde o voto de cada cidadão permita aos cubanos decidir seu futuro.

Os cárceres cubanos são verdadeiros infernos onde existem diariamente violações flagrantes da dignidade humana. Passei 12 anos na prisão. Na última vez fui acusado do que eles chamam de “delitos contra a segurança do Estado”. Meu único “delito” consistiu em solicitar ao Estado cubano que respeitasse os direitos humanos fundamentais de todo cidadão cubano.

O sistema penitenciário de Cuba viola os requisitos mínimos de cuidado dos prisioneiros estabelecidos pelas Nações Unidas. Durante meus anos na prisão, presenciei prisioneiros que eram mantidos até 12 horas e às vezes mais de 24 horas com as mãos algemadas nas costas e os pés acorrentados; prisioneiros nus, sem qualquer respeito ao pudor humano, eram mantidos durante meses em celas sem ventilação, luz natural, água potável ou instalações sanitárias, além do uso de pistolas Taser para torturas físicas e psicológicas. Como forma de retaliação se lhes negava atenção médica.

No meu caso particular, três prisioneiros tentaram assassinar-me em diferentes ocasiões. Dois deles foram contratados por oficiais militares. A perseguição começou na década de 90. Em 1998, numa ocasião em que eu fazia uma apresentação sobre o direito á vida num hospital, uma turba do partido comunista expulsou-me violentamente do recinto. Desde então me foi negado praticar minha profissão de médico. Minha esposa e meu filho foram ameaçados para que me abandonassem e fomos desalojados de nossa casa.

Milhares de cubanos valentes, indiferentes à ameaça da tortura e da morte, fazem frente aos irmãos Castro e exigem seus direitos fundamentais. Suas filas continuam crescendo e eu não estou só nesta luta, mas necessitamos da ajuda da comunidade internacional.

A Primavera Árabe é a demonstração de que é possível a mudança democrática impulsionada pelo povo. Vimos o êxito de movimentos democráticos pacíficos no resto da América Latina e no antigo bloco soviético. Na maioria desses lugares, seu advento teve como resultado a liberdade, a reconciliação nacional e a prosperidade. Podemos obter os mesmos resultados em Cuba e assim o faremos: uma Cuba onde sejamos livres e soberanos. A comunidade internacional tem o dever de ajudar na qualidade de sócia, proporcionando os recursos diplomáticos que nós não podemos reunir a partir de minha pátria.

A visita do Papa é importante porque a Igreja Católica exerceu um papel crucial na expansão e proteção das liberdades cubanas no passado. Minha própria libertação da prisão e a de outros opositores foi negociada principalmente por ela.

Para os que anelamos uma Cuba livre, nossas reivindicações são simples: o respeito à liberdade de expressão, de associação e de reunião, e eleições multipartidárias onde o voto de cada cubano lhe permita decidir sobre seu futuro, num país no qual nenhum cubano seja exilado por suas crenças políticas.

Estes são os blocos de construção de uma Cuba verdadeiramente livre e próspera. A presença do Papa Bento XVI representa uma oportunidade única para que o povo cubano se manifeste e exerça pressão sobre a tirania, para que se realizem eleições livres e multipartidárias e Cuba se una aos países livres e democráticos do mundo. Peço ao Papa Bento XVI que se centre nesta ideia para que ocorra uma mudança rápida em meu país e que possamos viver em liberdade.

sexta-feira, 23 de março de 2012

A aparência e a realidade

(Foto: Franklin Reyes/AP)
Após serem expulsos pela polícia da área particular que haviam invadido em Pinheirinho, São José dos Campos (SP) – fato que ocasionou veementes protestos de diversos políticos petistas e foi objeto de grande cobertura da mídia –, os invasores dizem que agora não têm para onde ir. – “E que lugar merecem esses invasores senão ‘debaixo da ponte’?” – frase que a esquerda adoraria, se pronunciada por alguém da direita. Mas prossigamos. Falando pouco depois à imprensa, um dos líderes do movimento declarou que se não fosse o apoio do PT, de religiosos ligados às Comunidades de Base e à Teologia da Libertação, era mesmo para perder toda a esperança.

Na realidade, os desesperançados da foto não são os invasores de Pinheirinho, tão afagados pela esquerda, mas alguns dos treze dissidentes que a polícia de Fidel e Raúl Castro enxotou neste último fim de semana de uma igreja de Havana. Eles fazem parte dos 11 milhões de cubanos que vivem de modo permanente “debaixo da ponte” da miséria a que os relegou o regime comunista e protestavam pacificamente para chamar a atenção da opinião pública mundial ante a iminente visita de Bento XVI à ilha-prisão.

O pedido à polícia foi feito pelo cardeal D. Jaime Ortega, Arcebispo de Havana, sendo os dissidentes conduzidos a uma delegacia, fichados e depois liberados. Em declarações ao “Washington Post”, o líder deles (em destaque na foto), Fred Calderón, declarou que a polícia os tratou com brutalidade, contrariamente ao que foi noticiado.

Seja como for, fica patente o seguinte: no Brasil, até alguns anos atrás, as igrejas do ABC eram gentilmente cedidas para as concentrações de Lula e dos metalúrgicos, que visavam à desestabilização da sociedade; em Cuba, como o regime já é a realização daquilo que Frei Betto e seus comparsas, bem como importantes setores do PT desejavam implantar no Brasil – ou seja, o comunismo –, aqueles que ousam manifestar-se contra ele nas igrejas são expulsos pelo cardeal. Conclusão: cá e lá, a mesma colaboração há.

Em tempo: A situação para as Damas de Branco – opositoras do regime cubano, do qual exigem respeito aos direitos humanos – não está propriamente idêntica às suas vestes. Setenta delas foram presas. As prisões iniciaram-se no sábado, dia 17 e seprolongaram no domingo, quando várias foram detidas pouco depois de saírem de uma igreja onde assistiram à missa. Elas pedem para serem recebidas por Bento XVI, “ainda que seja só por um minuto”, pois do contrário haverá o risco de o Sumo Pontífice encontrar-se apenas com os carcereiros do povo cubano.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Sai do mercado o “produto” Fidel Castro

No andar térreo de um derruído e mal iluminado sobrado no centro de Havana, um funcionário do Estado retira, de uma prateleira empoeirada e semi-vazia, o único frasco que restava de certo medicamento agora proscrito, jogando-o com desdém numa lata velha de lixo. Em seu rótulo estava impresso: Fidel Castro.

Após 49 anos nas prateleiras não só de Cuba, mas dos mercados internacionais, trombeteado nas ondas da Rádio Moscou e congêneres, afagado em jornais e televisões de plutocratas, divulgado nos mais variados países por atilados agentes, solicitado pela intelligentsia de uma ideologia tornada bolorenta, sorvido qual precioso elixir por “teólogos da libertação”, nada disso demoveu a multinacional farmacêutica Ruscubachina de retirar de circulação aquele rebarbativo “produto”.

Motivo: além da ausência de procura pelos consumidores internos de Cuba, onde foi lançado, apareceu no mercado venezuelano um genérico mais eficiente, tendo ficado ainda provado que o produto estava causando depressão e envelhecimento precoce em seus usuários.

* * *

Essa metáfora espelha a trajetória do ditador cubano, cujo avançado estado de depauperamento físico e mental não lhe oferecia outra saída senão a de abdicar, em benefício do delfim seu irmão, àquilo de que jamais ele abriria mão, não fosse a morte iminente que o aguarda, seguida de um terrível juízo.

Neste sentido, apesar de afirmar a máxima comunista segundo a qual “a religião é o ópio do povo”, Fidel Castro chegou certa feita a declarar que acreditava na existência do inferno, que seu calor era insuportável, e que lá ele iria fazer companhia a Marx, Engels e a inúmeros “companheiros” de jornada revolucionária.
Ao lado de ser um líder revolucionário, Fidel Castro foi um grande ator adrede preparado pela propaganda comunista. Esta cuidou de modo especial de seu perfil – barba, charuto à boca e boné na cabeça –, fazendo em seguida incidir sobre ele, bem como sobre sua revolução, os possantes holofotes da mídia, numa bem orquestrada ofensiva financiada pelos cofres de Moscou e de macro-capitalistas.

Filho de ricos fazendeiros e ex-aluno jesuíta, para se impor Fidel Castro teve de enganar o povo cubano, apresentando-se como católico. Para isso chegou inclusive a pendurar medalhinha no pescoço, ostentando-a por cima da camisa. Sabia que, se tal não fizesse, teria insucesso. Depois começou propriamente sua revolução: perseguições à Igreja e aos adversários do regime, instituição do famoso paredón, e sobretudo aquilo sem o qual nenhum regime comunista se consolida: uma draconiana Reforma Agrária.

Mas, como não poderia deixar de ser, o regime comunista só gerou miséria, tanto moral como material, uma vez que a instituição da família ficou à mercê das leis libertinas decorrentes de sua ideologia, e a iniciativa particular cessou de existir. Com isso, tanto por ocasião do estabelecimento do regime comunista como ao longo das cinco décadas em que ele teve vigência, incontáveis foram as pessoas de todas as idades e condições sociais que, com risco da própria vida, saíram da Ilha outrora conhecida como a Pérola das Antilhas.

A revolução cubana conseguiu ser expansionista enquanto a então União Soviética a manteve de pé. Pois era através desta e dos macro-capitalistas que ajudavam a sustentá-la, que Cuba recebia o dinheiro e material bélico para tentar sublevar, com os falsos ideais comunistas, as populações da América Latina e da África. Mas mesmo assim, nunca obteve resultados expressivos. Antes pelo contrário. Che Guevara, por exemplo, foi morto na Bolívia pelo fato de ter sido denunciado pelos próprios camponeses que ele afirmava querer “libertar”.

Com o desmoronamento, em 1990, da União Soviética, Cuba ficou reduzida a quase um ente de razão. Sua subsistência até o presente se deveu tão-só ao fato de que, para a causa mundial do comunismo, era indispensável que em algum lugar do mundo permanecesse, como ponto de referência para seus desconcertados adeptos, alguma ilha no Ocidente onde aquele regime continuasse a existir.

Muito antes, portanto, da agonia de Fidel Castro, seu regime já estava com os dias contados. No sentido de que Cuba não era mais a ponta-de-lança da revolução comunista no continente latino-americano, mas se tornara uma mera peça ornamental colocada na vitrine de plástico comunista para servir de alento a desiludidos partidários.

* * *

Após o governo “kerenskyano” de Fernando Henrique Cardoso, as condições da opinião pública brasileira felizmente não permitiram – diferentemente do ocorrido na Rússia – que houvesse no Brasil o advento de um Lenine que Lula fazia pressagiar. Foi mister buscá-lo alhures, com algumas adaptações, pois líderes revolucionários também estão entre as espécies em extinção.

Parece que o encontraram na pessoa de Hugo Chávez. Seu modo de ser, somado à conseqüente forma de pensar e de agir, hauridos da ideologia proletária do comunismo, como ainda o recente arsenal comprado da Rússia, o tornam lídimo herdeiro de Fidel Castro. Com uma pitada de Lenine, proveniente da riqueza que lhe proporciona o petróleo.

Ao abdicar em favor do delfim seu irmão – para a esquerda, a coisa mais natural do mundo – Fidel não fez senão atender, pela primeira e última vez, ao clamor da miserável população que, a exemplo do filme “Tropa de Elite”, exclamou: “Pede para sair, revolução malograda!”

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Dissidente cubano acha que Lula foi elitista

Em entrevista ao “Estado de São Paulo” pouco depois da visita de Lula a Cuba, o dissidente cubano Oswaldo Payá reclamou do pouco apreço dele pela democracia, uma vez que o mandatário brasileiro esteve só com a cúpula do governo, não dando atenção nem ao sofrido povo nem à oposição.

Todo brasileiro medianamente informado sabe que assistem ao dissente sobradas razões.

Patenteia-se assim, mais uma vez, que os segmentos favorecidos pelo programa Bolsa Família só interessam ao nosso presidente na medida em que este pode utilizar-se deles para fins eleitoreiros.

Mais ou menos na mesma ocasião, os jornais brasileiros noticiaram que em 2007 o governo Lula libertou da escravidão mais de cinco mil pessoas. Ora, todo o mundo sabe que Cuba, ela sim, é uma imensa senzala. Inclusive dois de seus escravos tentaram se refugiar no Brasil quando dos Jogos Pan-americanos, tendo sido repatriados pelo governo brasileiro em avião venezuelano.

Como pretendem combater a inexistente escravidão no Brasil quando omitem, para dizer pouco, a clamorosa realidade cubana? Por que não ouvir e prestigiar o povo cativo e a oposição, em vez de destinar dinheiro ao regime opressor?

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Contrastes entre duas visitas

O Presidente Lula acaba de chegar de Havana, da segunda visita que faz ao “companheiro” Fidel Castro.

A primeira se deu em 2003, quando viajou acompanhado do então todo-poderoso ministro José Dirceu, que chorou de emoção sobre os ombros do ditador cubano, como a dizer: “le jour de gloire est arrivé!”

Qual foi o cômputo para a infeliz parceria da esquerda cubano-brasileira nesses quatro anos que se passaram? Espantosa inversão! Se não, vejamos:

– Fidel Castro está moribundo, mais morto do que vivo.

– José Dirceu, fora do governo e acusado de formação de quadrilha, ataca o próprio PT.

– Frei Betto, ex-conselheiro do governo Lula e apaixonado habitué de Cuba, ausente há tempo de um e de outra.

– As fugas desesperadas de ingratos habitantes do “Paraíso” socialista cubano não cessam de minar os esforços de propaganda das esquerdas latino-americanas...

– E Lula, equilibrando-se como pode sobre o terreno movediço da contradição, nega as realidades mais evidentes. Assim, a respeito de Fidel Castro, declarou: “Está com uma lucidez incrível, com uma saúde impecável!”

Se o Brasil estiver sendo conduzido com a suposta lucidez de quem há 17 meses não é capaz de se dirigir ao público, e se a saúde do governo petista for comparável à do moribundo ditador, é bem o caso de se colocar agora um no ombro do outro, e desatarem ambos a chorar...

Farc, Chávez & Cia. – III

Enquanto isso, em Cuba, durante a recente visita do Presidente Lula, o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, reafirmou que não concorda com Chávez em classificar as FARC de “insurgência”, mas que o Brasil continuará também a não chamá-las de terroristas, pois sob este epíteto o País só considera a Al Qaeda, porque designada assim pela ONU.

Declaração cômoda e simplista!

O diapasão é a ONU, e não o senso moral aplicado a determinados atos!

Como chamar a quem semeia o terror senão de terrorista?

O que leva a pensar que essa tirada de corpo oculta na realidade uma mal-velada simpatia do governo em relação ao grupo narco-comunista.

Na expressão do jornalista Augusto de Franco, “Lula é o Chávez possível nas condições do País” (FSP, 8-1-07). Para ambos, pouco parece importar as mortes com as quais as FARC continuam a ensangüentar a Colômbia, ou o perigo de elas virem a fazer o mesmo no resto de continente – eventualidade que deita luz sobre o imenso arsenal bélico acumulado pelo defensor venezuelano delas.

* * *

Para uma abordagem mais aprofundada deste assunto e de correlatos, recomendo o blog Radar da Mídi: http://radardamidia.blogspot.com/