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sábado, 15 de março de 2008

LIVRO NEGRO DA REVOLUÇÃO FRANCESA

O blog da Federação dos Estudantes da Aquitânia publicou, em 13 de fevereiro de 2008, entrevista com o renomado jornalista, ensaísta e historiador Jean Sévillia, autor de várias obras e um dos co-autores do Livro Negro da Revolução Francesa (Ed. du Cerf, janeiro de 2008, 882 pp). Segue abaixo a tradução.


– Qual foi a sua contribuição para esse livro?

– Há dois anos, encontrando-me com o Pe. Renaud Escande, idealizador do futuro Livro Negro da Revolução Francesa, ele me perguntou que contribuição eu poderia dar à obra. Logo em seguida tive uma idéia, posta em execução num texto, à maneira de esboço de resposta para aquela pergunta: “Será comemorado o terceiro centenário da Revolução?”. Na época eu estava mergulhado na preparação de meu livro Moralmente correto, publicado em 2007, e impressionado pela amplitude das mudanças da sociedade e das mentalidades a que assistimos no decurso das últimas décadas. Projetando o mesmo espaço-tempo não mais para o passado, mas para o futuro, disse para comigo que seria interessante interrogar sobre o que restará da Revolução Francesa em 2089. Pergunta que pode ser entendida em duplo sentido: o que restará da Revolução, mas também o que restará da França. A conjectura é um exercício arriscado: tantas previsões, felizes ou infelizes, foram frustradas... Mas não é proibido interrogar, a partir do momento em que se sabe que certos fatos têm conseqüências iniludíveis.

– Que continuidade existe entre este e seus livros anteriores?

– Sou simultaneamente jornalista, ensaísta e historiador. Minha contribuição ao Livro Negro da Revolução Francesa inscreve-se nesta perspectiva: o historiador trabalhou sobre 1789, o jornalista mergulhou em suas lembranças de 1989, e o ensaísta tentou refletir sobre 2089.

– Qual é a idéia-base deste livro?

– A despeito do fato de que todos os historiadores sérios, mesmo os ardentemente republicanos, são unânimes em que a Revolução Francesa apresenta um problema, a imagem oficial – a dos livros escolares do primário e do secundário, a da televisão – mostra os acontecimentos de 1789 e dos anos seguintes como o momento da fundação de nossa sociedade, maquiando tudo aquilo que se quer esconder: o Terror, a perseguição religiosa, a ditadura de uma minoria, o vandalismo artístico etc. Hoje, elogia-se 1789 e nega-se 1793. A Declaração dos Direitos do homem é benquista, mas não a lei dos suspeitos. Mas, como separar 1789 de 1793 quando se sabe que o fenômeno terrorista começa a partir de 1789? Para responder à pergunta, a idéia-base do Livro Negro da Revolução Francesa é mostrar essa face da realidade que nunca é mostrada, e lembrar que houve sempre uma oposição à Revolução Francesa, mas sem trair a História. Queira-se ou não, goste-se ou não da Revolução, é um mapa da História da França e dos franceses. Não poderá ser apagado: cumpre ao menos compreendê-lo.

– Este livro, do qual participaram diversos professores, mostra que o mundo universitário está em vias de mudar?

– O mundo universitário mudou há muito tempo. Lembrem-se do Bicentenário [da Revolução Francesa, em 1989]: de Pierre Chaunu a Jean Tulard, de Reynald Secher aos historiadores estrangeiros que se descobriam então, tal como Alfred Cobban, todos os grandes nomes da pesquisa histórica situavam-se, em graus diversos, numa posição de crítica em relação à Revolução Francesa. É preciso lembrar o papel essencial e paradoxal de François Furet: este homem de esquerda, ligado ao liberalismo mas nunca à contra-revolução, participou fortemente do naufrágio do mito revolucionário nos meios intelectuais. Mas ele não é feito senão de amigos! Depois de 1989, contudo, passou-se uma geração. De onde a idéia, com este Livro Negro, de retomar a questão com novas colaborações, com contribuições em parte novas.

– No quê uma obra sobre a Revolução Francesa ainda pode interessar os franceses de hoje?

– Numa sociedade que se defronta com uma verdadeira depressão cultural, existe ainda um público cultivado e que lê. Se o Livro Negro chegar a esse público, já estará bem. Observa-se há anos um verdadeiro fascínio pela Idade Média. Nas multidões que vagueiam pelos castelos do [vale do] Loire ou de Versailles, ou na voga da música antiga, encontra-se um interesse pela civilização pré-revolucionária. Chegará o momento em que esse público verá de frente a história da Revolução, pronto a ser modificado em suas certezas. Mas, a se crer na receptividade que encontrei com meu livro Historicamente correto, uma obra que atingiu sem dúvida meio milhão de leitores, há muita gente na França pronta para objetar contra alguns mitos históricos estabelecidos. Espero que o Livro Negro da Revolução Francesa, do qual não sou senão uma das múltiplas vozes, contribuirá para isso.

quinta-feira, 13 de março de 2008

LIVRO NEGRO DA REVOLUÇÃO FRANCESA




Reabilitação da Rainha Maria Antonieta

Na França, país cuja história influenciou profundamente o regime político e a vida social e cultural de todos os povos ocidentais, estão na ordem do dia dois acontecimentos de grande significado.

O primeiro deles é o espetacular lançamento, pelas edições du Cerf, do Livro Negro da Revolução Francesa, de 882 páginas. Elaborou-o, sob a direção do Pe. Renaud Escande, OP, um pequeno batalhão de 46 historiadores, entre os quais Pierre Chaunu, Jean Tulard, Emmanuel Leroy-Ladurie, Jean-Sévillia e Jean-Christian Petitfils. É o Tribunal da História julgando o Tribunal Revolucionário de 1789. Lançado em janeiro de 2008 ao preço de 44 euros, já está na terceira edição. Em apenas três semanas, escoaram-se 10 mil exemplares!

Aliando erudição com farta documentação, seus autores recompõem para a posteridade o verdadeiro rosto da Revolução Francesa – sanguinária e cruel, perseguidora da Religião e da Monarquia – que os manuais de história, a literatura, os meios acadêmicos e de comunicação social insistiam até há pouco em apresentar sempre maquiado.

Eis as palavras introdutórias ao Livro Negro da Revolução Francesa:
“Legítimos e gloriosos, festivos e fraternais, frutos de uma ‘razão’ esperada pelos séculos: é assim que são habitualmente apresentados os acontecimentos daquele que foi um dos períodos mais sangrentos da História, inaugurando tragicamente uma sucessão de revoluções e de conflitos que marcaram a Europa até a metade do século XX.

“É sempre do interesse de uma nação fazer brilhar alguns mitos fundadores, e do interesse dos que tomaram o poder, de mascarar a violência e arbitrariedade sobre as quais eles impuseram sua dominação. Mas a História não é escrita como a mitologia, e sua exigência de verdade não deveria ser atravancada por pretensões utilitaristas. Esta obra não pretende ‘enegrecer’ fatos que falam por si. Esta violência inaudita – que entretanto se reclamava das Luzes – produziu uma onda de choque tal, que deveria estender-se por diversas gerações. Ela levou consigo, sobre o fenômeno revolucionário, toda uma série de obras e de reflexões críticas, das quais se nega muito rapidamente, com freqüência, a legitimidade.”
* * *

O segundo acontecimento diz também respeito à reconstituição da verdade histórica sobre a Revolução Francesa. Trata-se do anúncio de uma grande exposição sobre a Rainha Maria Antonieta, a realizar-se no Grand Palais a partir de 15 de março de 2008. O semanário “Valeurs Actuelles” dedicou-lhe uma substanciosa matéria de capa intitulada “Maria Antonieta superstar”, que seu colaborador Laurent Dandrieu inicia com estas palavras: “Maria Antonieta volta ao centro da atualidade. O tempo joga a favor da mais vilipendiada das rainhas da França, que não cessa de cativar os corações e as imaginações.”

São as voltas que a História dá: em nome da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, a Revolução Francesa cometeu os piores crimes que imaginar se possa. E, a exemplo do que sucede com os criminosos, acabou, também ela, no banco de réus... Enquanto isso, “a mais vilipendiada das rainhas”, Maria Antonieta, injustamente condenada à guilhotina pela turba revolucionária, desce das sombras do cadafalso e dá início a uma ascensão rumo aos galarins da glória. Nos braços do povo francês.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Às vésperas de mais um carnaval

Já que falamos de moda, é o caso de aproveitarmos para acrescentar algumas observações do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sobre o carnaval, que ajudarão a elucidar o assunto.

Comentou ele que nessa marcha gradual rumo à aceitação do caos, o carnaval desempenha um papel muito importante. Os excessos nele cometidos em determinado ano serão assimilados no ano seguinte pela moda. Esta, por sua vez, fará com que o próximo carnaval seja ainda mais ousado, dando origem a novas modas, também mais ousadas. E assim sucessivamente.

É o que explica o fato de as pessoas aceitarem hoje como “normais”, modas que há alguns anos jamais admitiriam. Por exemplo, se a mini-saia ou a mini-blusa tivessem sido lançadas quando nossos avós eram jovens, seriam rejeitadas.

À guisa de justificação, costuma-se argumentar que essa liberalização dos costumes faz parte do curso da “evolução” e enquanto tal deve ser aceita. Na verdade, trata-se de um bem orquestrado processo, articulado por forças revolucionárias que tramam a destruição da família e da civilização cristã. O divórcio, por exemplo, tido como moderno e próprio de sociedades “evoluídas”, é uma prática herdada do paganismo...

Por fim, sobre o curso das modas, é interessante lembrar ainda algumas considerações do historiador francês Gaston Lenôtre. Conta ele que pouco antes da Revolução Francesa – época em que até para brincar as crianças trajavam belas roupas de veludo com botões dourados –, um filósofo apareceu no Jardim das Tulherias com seus filhos vestidos de marinheiro. A reação foi de estupor, seguido de vaia. Contudo, pouco tempo depois, as pessoas foram se acostumando, e a moda se generalizou. Com a finura de percepção característica do espírito francês, Lenôtre afirmou que na realidade a Revolução Francesa começara ali.