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sexta-feira, 23 de março de 2012

A aparência e a realidade

(Foto: Franklin Reyes/AP)
Após serem expulsos pela polícia da área particular que haviam invadido em Pinheirinho, São José dos Campos (SP) – fato que ocasionou veementes protestos de diversos políticos petistas e foi objeto de grande cobertura da mídia –, os invasores dizem que agora não têm para onde ir. – “E que lugar merecem esses invasores senão ‘debaixo da ponte’?” – frase que a esquerda adoraria, se pronunciada por alguém da direita. Mas prossigamos. Falando pouco depois à imprensa, um dos líderes do movimento declarou que se não fosse o apoio do PT, de religiosos ligados às Comunidades de Base e à Teologia da Libertação, era mesmo para perder toda a esperança.

Na realidade, os desesperançados da foto não são os invasores de Pinheirinho, tão afagados pela esquerda, mas alguns dos treze dissidentes que a polícia de Fidel e Raúl Castro enxotou neste último fim de semana de uma igreja de Havana. Eles fazem parte dos 11 milhões de cubanos que vivem de modo permanente “debaixo da ponte” da miséria a que os relegou o regime comunista e protestavam pacificamente para chamar a atenção da opinião pública mundial ante a iminente visita de Bento XVI à ilha-prisão.

O pedido à polícia foi feito pelo cardeal D. Jaime Ortega, Arcebispo de Havana, sendo os dissidentes conduzidos a uma delegacia, fichados e depois liberados. Em declarações ao “Washington Post”, o líder deles (em destaque na foto), Fred Calderón, declarou que a polícia os tratou com brutalidade, contrariamente ao que foi noticiado.

Seja como for, fica patente o seguinte: no Brasil, até alguns anos atrás, as igrejas do ABC eram gentilmente cedidas para as concentrações de Lula e dos metalúrgicos, que visavam à desestabilização da sociedade; em Cuba, como o regime já é a realização daquilo que Frei Betto e seus comparsas, bem como importantes setores do PT desejavam implantar no Brasil – ou seja, o comunismo –, aqueles que ousam manifestar-se contra ele nas igrejas são expulsos pelo cardeal. Conclusão: cá e lá, a mesma colaboração há.

Em tempo: A situação para as Damas de Branco – opositoras do regime cubano, do qual exigem respeito aos direitos humanos – não está propriamente idêntica às suas vestes. Setenta delas foram presas. As prisões iniciaram-se no sábado, dia 17 e seprolongaram no domingo, quando várias foram detidas pouco depois de saírem de uma igreja onde assistiram à missa. Elas pedem para serem recebidas por Bento XVI, “ainda que seja só por um minuto”, pois do contrário haverá o risco de o Sumo Pontífice encontrar-se apenas com os carcereiros do povo cubano.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Sai do mercado o “produto” Fidel Castro

No andar térreo de um derruído e mal iluminado sobrado no centro de Havana, um funcionário do Estado retira, de uma prateleira empoeirada e semi-vazia, o único frasco que restava de certo medicamento agora proscrito, jogando-o com desdém numa lata velha de lixo. Em seu rótulo estava impresso: Fidel Castro.

Após 49 anos nas prateleiras não só de Cuba, mas dos mercados internacionais, trombeteado nas ondas da Rádio Moscou e congêneres, afagado em jornais e televisões de plutocratas, divulgado nos mais variados países por atilados agentes, solicitado pela intelligentsia de uma ideologia tornada bolorenta, sorvido qual precioso elixir por “teólogos da libertação”, nada disso demoveu a multinacional farmacêutica Ruscubachina de retirar de circulação aquele rebarbativo “produto”.

Motivo: além da ausência de procura pelos consumidores internos de Cuba, onde foi lançado, apareceu no mercado venezuelano um genérico mais eficiente, tendo ficado ainda provado que o produto estava causando depressão e envelhecimento precoce em seus usuários.

* * *

Essa metáfora espelha a trajetória do ditador cubano, cujo avançado estado de depauperamento físico e mental não lhe oferecia outra saída senão a de abdicar, em benefício do delfim seu irmão, àquilo de que jamais ele abriria mão, não fosse a morte iminente que o aguarda, seguida de um terrível juízo.

Neste sentido, apesar de afirmar a máxima comunista segundo a qual “a religião é o ópio do povo”, Fidel Castro chegou certa feita a declarar que acreditava na existência do inferno, que seu calor era insuportável, e que lá ele iria fazer companhia a Marx, Engels e a inúmeros “companheiros” de jornada revolucionária.
Ao lado de ser um líder revolucionário, Fidel Castro foi um grande ator adrede preparado pela propaganda comunista. Esta cuidou de modo especial de seu perfil – barba, charuto à boca e boné na cabeça –, fazendo em seguida incidir sobre ele, bem como sobre sua revolução, os possantes holofotes da mídia, numa bem orquestrada ofensiva financiada pelos cofres de Moscou e de macro-capitalistas.

Filho de ricos fazendeiros e ex-aluno jesuíta, para se impor Fidel Castro teve de enganar o povo cubano, apresentando-se como católico. Para isso chegou inclusive a pendurar medalhinha no pescoço, ostentando-a por cima da camisa. Sabia que, se tal não fizesse, teria insucesso. Depois começou propriamente sua revolução: perseguições à Igreja e aos adversários do regime, instituição do famoso paredón, e sobretudo aquilo sem o qual nenhum regime comunista se consolida: uma draconiana Reforma Agrária.

Mas, como não poderia deixar de ser, o regime comunista só gerou miséria, tanto moral como material, uma vez que a instituição da família ficou à mercê das leis libertinas decorrentes de sua ideologia, e a iniciativa particular cessou de existir. Com isso, tanto por ocasião do estabelecimento do regime comunista como ao longo das cinco décadas em que ele teve vigência, incontáveis foram as pessoas de todas as idades e condições sociais que, com risco da própria vida, saíram da Ilha outrora conhecida como a Pérola das Antilhas.

A revolução cubana conseguiu ser expansionista enquanto a então União Soviética a manteve de pé. Pois era através desta e dos macro-capitalistas que ajudavam a sustentá-la, que Cuba recebia o dinheiro e material bélico para tentar sublevar, com os falsos ideais comunistas, as populações da América Latina e da África. Mas mesmo assim, nunca obteve resultados expressivos. Antes pelo contrário. Che Guevara, por exemplo, foi morto na Bolívia pelo fato de ter sido denunciado pelos próprios camponeses que ele afirmava querer “libertar”.

Com o desmoronamento, em 1990, da União Soviética, Cuba ficou reduzida a quase um ente de razão. Sua subsistência até o presente se deveu tão-só ao fato de que, para a causa mundial do comunismo, era indispensável que em algum lugar do mundo permanecesse, como ponto de referência para seus desconcertados adeptos, alguma ilha no Ocidente onde aquele regime continuasse a existir.

Muito antes, portanto, da agonia de Fidel Castro, seu regime já estava com os dias contados. No sentido de que Cuba não era mais a ponta-de-lança da revolução comunista no continente latino-americano, mas se tornara uma mera peça ornamental colocada na vitrine de plástico comunista para servir de alento a desiludidos partidários.

* * *

Após o governo “kerenskyano” de Fernando Henrique Cardoso, as condições da opinião pública brasileira felizmente não permitiram – diferentemente do ocorrido na Rússia – que houvesse no Brasil o advento de um Lenine que Lula fazia pressagiar. Foi mister buscá-lo alhures, com algumas adaptações, pois líderes revolucionários também estão entre as espécies em extinção.

Parece que o encontraram na pessoa de Hugo Chávez. Seu modo de ser, somado à conseqüente forma de pensar e de agir, hauridos da ideologia proletária do comunismo, como ainda o recente arsenal comprado da Rússia, o tornam lídimo herdeiro de Fidel Castro. Com uma pitada de Lenine, proveniente da riqueza que lhe proporciona o petróleo.

Ao abdicar em favor do delfim seu irmão – para a esquerda, a coisa mais natural do mundo – Fidel não fez senão atender, pela primeira e última vez, ao clamor da miserável população que, a exemplo do filme “Tropa de Elite”, exclamou: “Pede para sair, revolução malograda!”

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Contrastes entre duas visitas

O Presidente Lula acaba de chegar de Havana, da segunda visita que faz ao “companheiro” Fidel Castro.

A primeira se deu em 2003, quando viajou acompanhado do então todo-poderoso ministro José Dirceu, que chorou de emoção sobre os ombros do ditador cubano, como a dizer: “le jour de gloire est arrivé!”

Qual foi o cômputo para a infeliz parceria da esquerda cubano-brasileira nesses quatro anos que se passaram? Espantosa inversão! Se não, vejamos:

– Fidel Castro está moribundo, mais morto do que vivo.

– José Dirceu, fora do governo e acusado de formação de quadrilha, ataca o próprio PT.

– Frei Betto, ex-conselheiro do governo Lula e apaixonado habitué de Cuba, ausente há tempo de um e de outra.

– As fugas desesperadas de ingratos habitantes do “Paraíso” socialista cubano não cessam de minar os esforços de propaganda das esquerdas latino-americanas...

– E Lula, equilibrando-se como pode sobre o terreno movediço da contradição, nega as realidades mais evidentes. Assim, a respeito de Fidel Castro, declarou: “Está com uma lucidez incrível, com uma saúde impecável!”

Se o Brasil estiver sendo conduzido com a suposta lucidez de quem há 17 meses não é capaz de se dirigir ao público, e se a saúde do governo petista for comparável à do moribundo ditador, é bem o caso de se colocar agora um no ombro do outro, e desatarem ambos a chorar...