Se a situação de esquecimento é penosa para qualquer pessoa, ela o é sobretudo para o demagogo. Era o que vinha sucedendo ao presidente venezuelano Hugo Chávez desde que ele foi derrotado no referendo de 2 de dezembro de 2007: praticamente saiu de cena na grande mídia.
Mas como está na índole do demagogo desempenhar qualquer papel – ele muda de um para outro com a mesma facilidade com que um político brasileiro troca de partido –, não foi difícil para Chávez apresentar-se com uma Gestalt de acordo com as conveniências do momento. Sobretudo tendo “companheiros” que pressurosos o ajudam... ou prometem ajudá-lo.
É o que aconteceu há pouco no Recife, quando o presidente Lula teve o desplante de afirmar que o “ex-guerrilheiro” Hugo Chávez foi o grande “pacificador” na recente crise entre o Equador e a Colômbia!
Isso equivaleu a chamar nossa opinião pública de imbecil, como se ela não se lembrasse da decidida atitude de beligerância de Chávez contra a Colômbia, a ponto de romper relações diplomáticas com ela e enviar tanques para a sua fronteira, quando o problema era com o Equador. Mais. Foi Chávez quem instigou o até então hesitante presidente equatoriano Rafael Correa a endurecer contra seu homólogo colombiano.
Ademais, a visita de Hugo Chávez ao Brasil acontece num contexto extremamente delicado para o Continente, com o qual o mandatário venezuelano tem muito que ver: a Argentina, sua aliada, está internamente em pé de guerra; o governo peruano encontra-se cada vez mais preocupado com as ingerências chavistas visando desestabilizá-lo; uma crise profunda continua instalada na Bolívia; e as feridas causadas pelo conflito entre o Equador e a Colômbia ainda não cicatrizaram.
Foi nesse contexto que o presidente Lula não titubeou em se referir ao incendiário Chávez com o título que ele tanto persegue e mais desmerece: o de “pacificador”. Título altamente lisonjeiro para quem se quer atribuir o papel de Simon Bolívar, na tentativa de retomar uma fracassada liderança em nível continental. Lula disse ainda uma coisa que todo mundo já sabia: que seu empenho em ver a Venezuela no Mercosul é tão grande quanto o do “companheiro” Hugo Chávez.
Além da aliança econômica com a Venezuela, o Brasil está à frente com ela de outra preocupante iniciativa: a de estabelecer uma aliança militar para a segurança continental. Iniciativa que seria simpática, caso não estivéssemos lidando com governos norteados por uma ideologia marxista e anticristã, a qual querem ver implantada nos demais países. Documentos recentemente apreendidos com as FARC deram conta do comprometimento dos governos da Venezuela e do Equador com aquele movimento terrorista.
Tornar-se-ão realidade os propalados acordos entre o Brasil e a Venezuela para a exploração de petróleo em Pernambuco? Ou terão o mesmo destino do “megalomeoduto” com o qual Chávez acenou há anos para uma integração sul-americana? Caso se concretizem os referidos acordos, terá valido a pena a parceria com um governo que tem usado sua riqueza como meio de desestabilizar os países vizinhos?
Cumpre lembrar que Pernambuco se tornou ultimamente um dos estados mais violentos do Brasil. Do mesmo modo como a Venezuela se tornou o país mais violento da América do Sul desde a ascensão de Chávez ao poder (o índice de criminalidade é o dobro do registrado no Brasil ou no México!). Que o “pacificador” não jogue mais lenha na fogueira!
terça-feira, 1 de abril de 2008
quarta-feira, 26 de março de 2008
Aula magna de subversão
Helio Viana
Enquanto os brasileiros vivem a sua rotina – levantam-se, vão ao trabalho e depois retornam às suas casas para se reunirem com suas famílias e prepararem um novo dia –, com a mesma rotina ergue-se, labuta contra eles e volta a seus antros para tramar novas conspirações uma organização subversiva chamada MST, especiosamente rotulada por seus hábeis manipuladores de “movimento social”.
Com fortes apoios em certos meios religiosos e poderes constituídos, o MST tem a missão de coadjuvar o governo na sua marcha rumo ao socialismo. Seu papel é pressioná-lo e obter dele concessões cada vez maiores em matéria de reformas, particularmente a agrária. Pois se a iniciativa de tais reformas partisse do governo, este tiraria a máscara e se indisporia com a opinião pública. A tarefa de “bicho papão” exercida pelo MST deixa assim o governo cômodo para agir, dizendo que está tão-só atendendo os clamores de justiça social de um povo faminto.
O regime feudal baseava-se no binômio proteção-fidelidade: o senhor feudal protegia o servo da gleba e recebia em troca a fidelidade dele. Binômio análogo, embora nos antípodas, dá-se entre governo e MST: o governo lhe dispensa proteção e recebe em troca sua fidelidade.
Apesar de suas invasões – com o conseqüente desrespeito às leis do País – terem neste início de ano aumentado sensivelmente, em vez de ser punido, o MST foi promovido. Com efeito, a seu líder João Pedro Stédile coube uma honra a que poucas notoriedades brasileiras é concedida: foi o convidado especial do reitor Aloísio Teixeira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), para proferir a aula magna de abertura do ano letivo de 2008, no campus do Fundão.
Diante de uma platéia de cerca de 200 pessoas, entre professores e alunos, aquele agitador profissional desenvolveu o tema “Terra, saberes e democracia”, sendo aplaudido de pé. O que ele disse? Estadeou sua pretensa sabedoria sobre problemas da terra e da democracia, dos quais, como o Brasil inteiro sabe, o MST é grande conhecedor e observador...
Mas o que Stédile de fato revelou em sua aula foi a mais recente estratégia do MST: atacar o trabalho de unidades multinacionais em setores como dos transgênicos e do agronegócio: “Percebemos que nossos inimigos principais agora são as empresas transnacionais. Enquanto houver um sem-terra respirando, vamos lutar para expulsar do País todas as empresas transnacionais que nos exploram na agricultura”, pontificou.
Ou seja, o objetivo dessas como de qualquer outra empresa sendo o lucro, cumpre combatê-las, pois na perspectiva do MST isto é imoral. Como se elas não tivessem também uma função social proporcionada pela mão-de-obra que empregam e pelo próprio fruto desta, a produção, da qual se beneficia toda a sociedade. O MST quer tudo destruir, pois ele só admite a empresa estatal, nos moldes dos falidos regimes comunistas.
Embora tenha se negado a falar de ações planejadas para um “abril vermelho” de invasões, Stédile afirmou que não recuará, mesmo diante da decisão da 41ª Vara Cível do Rio de Janeiro. Chamou a medida de “idiotice” e “ditatorial”, acrescentando que a Vale do Rio Doce está “desesperada”. Várias outras empresas – Monsanto, Syngenta, Aracruz, Stora Enzo, Votorantin, Bayer etc. – estão na mira do MST.
De mais a mais, que autoridade tem Stédile para dizer e agir assim? Quem lha conferiu? Já que ele discorreu sobre democracia, foi por acaso o povo brasileiro? Pelo contrário, este está farto das atividades subversivas desse movimento e de nenhum modo deseja a mudança do atual regime de livre iniciativa e propriedade privada para o regime socialista de propriedade coletiva tutelada pelo Estado, como o pregado pelo MST e por seus minguados adeptos.
Assim, enquanto do alto de uma cátedra provisória na UFRJ, Stédile se arremete sob aplausos contra a ordem estabelecida e o Judiciário, chegando a chamar de “idiotice” e “ditatorial” uma decisão dele, proprietários rurais são vítimas de invasões, roubos e torturas. Tal foi o caso, entre muitos outros, do advogado Rodrigo Macedo, da Fazenda Iara, em Euclides da Cunha Paulista, que acusado recentemente de revidar uma agressão dos sem-terra – “cet animal est très méchant, quand on l’attaque il se défend!” –, teve ainda que purgar seis dias na cadeia!
Em Andradina, no noroeste paulista, cerca de 80 sem-terra ligados ao Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura Familiar (Sintraf) destruíram há pouco nada menos que três mil pés de café da Fazenda Macaé. Disseram que agiram em protesto pela demora da Reforma Agrária. Um oficial de Justiça entregou-lhes uma intimação solicitando retirada imediata. Eles colocaram tratores na porteira para impedir a entrada da polícia. O dono da fazenda, Eduardo José Bernardes Filho, obteve a reintegração de posse na Justiça. Conseguirá retirá-los? E mesmo que o consiga, quem lhe pagará os prejuízos?
Essa é a rotina, o dia-a-dia do Brasil atual. Por detrás das aparências de normalidade existe uma imensa subversão – pouco sentida pelos citadinos, mas não por isso menos real –, que se não for contida poderá nos levar aos descaminhos aos quais as FARC conduziram a vizinha Colômbia.
quinta-feira, 20 de março de 2008
Direita francesa castiga Sarkozy
No segundo turno das eleições municipais francesas, ocorrido no dia 16 de março, prevaleceu a tendência observada no primeiro, ou seja, um recuo das forças da direita em benefício do Partido Socialista. Com efeito, este conquistou 24 das 36 cidades com mais de 100 mil habitantes, arrebatando ainda à direita 38 localidades com mais de 30 mil habitantes. Tanto o Partido Comunista como a extrema-direita de Le Pen obtiveram resultados inexpressivos.
Contudo, mais do que um avanço da esquerda, o que se observou foi um castigo infligido a Sarkozy por 35% da população de centro-direita que se abstiveram de votar. Não é temerária a afirmação, pois é sabido que o eleitorado de esquerda é disciplinado e não se abstém. Quanto mais no longo e tenebroso inverno político em que se encontra!
Se no próximo quatriênio que ainda tem à sua frente o presidente Sarkozy decidir “queimar o que adorou e adorar o que queimou”, reconciliando-se com a opinião pública que o elegeu com folgada margem de votos há apenas 10 meses, e encetar uma política consoante com as suas aspirações, terá tudo para reverter a situação; caso contrário, esta não fará senão piorar.
Contudo, mais do que um avanço da esquerda, o que se observou foi um castigo infligido a Sarkozy por 35% da população de centro-direita que se abstiveram de votar. Não é temerária a afirmação, pois é sabido que o eleitorado de esquerda é disciplinado e não se abstém. Quanto mais no longo e tenebroso inverno político em que se encontra!
Se no próximo quatriênio que ainda tem à sua frente o presidente Sarkozy decidir “queimar o que adorou e adorar o que queimou”, reconciliando-se com a opinião pública que o elegeu com folgada margem de votos há apenas 10 meses, e encetar uma política consoante com as suas aspirações, terá tudo para reverter a situação; caso contrário, esta não fará senão piorar.
A “caixa-preta” de Raúl Reyes
Afora as revelações altamente comprometedoras para Hugo Chávez e Rafael Correa, já referidas neste blog, a “caixa-preta” do computador do farcista Raúl Reyes, morto em operações do exército colombiano no início de março, continua a fornecer novas revelações.
A mais recente delas resultou na apreensão na Costa Rica, com espantosa rapidez e precisão em decorrência dos detalhes proporcionados, de uma caixa metálica enterrada em zona rural, contendo a soma de 480 mil dólares. Esta era uma parte do dinheiro destinado a atividades das FARC naquele país, onde os colombianos ocupam o segundo lugar no contingente de imigrantes.
Mais um alarmante sinal para nós, latino-americanos, abrirmos os olhos acerca da realidade que nos circunda, e nos perguntarmos se o narco-terrorismo farcista não deitou metástases em cada um de nossos países, valendo-se para isso da cumplicidade ou da conivência de pessoas colocadas muitas vezes nos mais altos cargos, a exemplo do que vem ocorrendo na Venezuela e no Equador. – Que novas revelações trará a “caixa-preta” de Raúl Reyes?
Em tempo: No momento de postar esta matéria, leio na imprensa de Lima que em Iquitos, capital da Amazônia Peruana com 438 mil habitantes, acaba de ser detido pela Dirección Contra el Terrorismo, mediante ordem judicial, um casal de farcistas. A captura foi considerada “importantíssima” pelo Gen. Octavio Salazar, diretor daquele órgão, uma vez que o guerrilheiro, Johnny Cárdenas, que atende pelo codinome de Tanaka, é um “peso pesado” da Frente 63 das FARC, conhecido especialista em explosivos e armamentos pesados, autor de fuzilamentos de desertores farcistas e de civis que se negavam a colaborar com a organização. Em seu ativo há ainda diversos atentados contra o exército colombiano. Ele atuava na região de Putumayo, junto à fronteira amazônica com o Peru, obedecendo ordens de Joaquín Gómez, sucessor de Raúl Reyes. Segundo fontes da inteligência colombiana, ele entrou clandestinamente no país vizinho – onde provavelmente se encontram outros terroristas – para ampliar as atividades narco-guerrilheiras das FARC.
A mais recente delas resultou na apreensão na Costa Rica, com espantosa rapidez e precisão em decorrência dos detalhes proporcionados, de uma caixa metálica enterrada em zona rural, contendo a soma de 480 mil dólares. Esta era uma parte do dinheiro destinado a atividades das FARC naquele país, onde os colombianos ocupam o segundo lugar no contingente de imigrantes.
Mais um alarmante sinal para nós, latino-americanos, abrirmos os olhos acerca da realidade que nos circunda, e nos perguntarmos se o narco-terrorismo farcista não deitou metástases em cada um de nossos países, valendo-se para isso da cumplicidade ou da conivência de pessoas colocadas muitas vezes nos mais altos cargos, a exemplo do que vem ocorrendo na Venezuela e no Equador. – Que novas revelações trará a “caixa-preta” de Raúl Reyes?
Em tempo: No momento de postar esta matéria, leio na imprensa de Lima que em Iquitos, capital da Amazônia Peruana com 438 mil habitantes, acaba de ser detido pela Dirección Contra el Terrorismo, mediante ordem judicial, um casal de farcistas. A captura foi considerada “importantíssima” pelo Gen. Octavio Salazar, diretor daquele órgão, uma vez que o guerrilheiro, Johnny Cárdenas, que atende pelo codinome de Tanaka, é um “peso pesado” da Frente 63 das FARC, conhecido especialista em explosivos e armamentos pesados, autor de fuzilamentos de desertores farcistas e de civis que se negavam a colaborar com a organização. Em seu ativo há ainda diversos atentados contra o exército colombiano. Ele atuava na região de Putumayo, junto à fronteira amazônica com o Peru, obedecendo ordens de Joaquín Gómez, sucessor de Raúl Reyes. Segundo fontes da inteligência colombiana, ele entrou clandestinamente no país vizinho – onde provavelmente se encontram outros terroristas – para ampliar as atividades narco-guerrilheiras das FARC.
Violência, açoite da Venezuela
O nível da violência subiu vertiginosamente nos últimos dez anos na Venezuela chavista. É o que revela matéria de Francisco Peregil, enviado especial a Caracas do jornal espanhol “El País” (18/03/08).
Dados proporcionados por Roberto Briceño, diretor do Observatório Venezuelano de Violência, entidade privada com a qual colaboram quatro universidades, dão conta de que a taxa anual de homicídios triplicou, passando de 4.550 em 1998 – quando Chávez ganhou as primeiras eleições – para 13.200 em 2007!
Segundo a mesma fonte, a taxa de homicídios por cada contingente de 100 mil habitantes passou de 19 em 1998 para 49 em 2006. Para se ter uma idéia do que isso significa, na Espanha essa taxa oscila entre um e dois; na Argentina, alarmada pelo elevado índice de criminalidade ela é de nove; no bang-bang brasileiro ela é de 23; e no México, 24. Portanto, o índice de criminalidade da Venezuela é o dobro do verificado no Brasil ou no México!
“O que aconteceu?” – pergunta Briceño. Ele responde: “A hipótese que mantenho é a de que os primeiros mortos por cada 100 mil habitantes têm a mesma explicação que teriam no México ou Brasil. Pobreza, desigualdade... Mas os outros vinte e tantos têm que ver com a quebra do pacto social levada a cabo com este governo. Quando o presidente faz um minuto de silêncio pelo guerrilheiro Raúl Reyes, está criando uma desordem na sociedade.”
Um morador da favela Petare – com um milhão de habitantes (1/3 da população de Caracas), administrada por um chavista e palco de atuação dos primeiros médicos cubanos chegados ao país – assegurou ao jornalista que nos finais de semana são ali assassinadas até 30 pessoas, e que só no ano passado houve 700 mortes violentas!
Enquanto cresce a violência, continua a despencar a popularidade de Chavez. Segundo o instituto de pesquisas Datos, em levantamento feito em fevereiro último junto a dois mil habitantes da área urbana, Chávez obteve 34% de aprovação, nove pontos a menos do obtido por ocasião do referendo de 2 de dezembro de 2007.
Dados proporcionados por Roberto Briceño, diretor do Observatório Venezuelano de Violência, entidade privada com a qual colaboram quatro universidades, dão conta de que a taxa anual de homicídios triplicou, passando de 4.550 em 1998 – quando Chávez ganhou as primeiras eleições – para 13.200 em 2007!
Segundo a mesma fonte, a taxa de homicídios por cada contingente de 100 mil habitantes passou de 19 em 1998 para 49 em 2006. Para se ter uma idéia do que isso significa, na Espanha essa taxa oscila entre um e dois; na Argentina, alarmada pelo elevado índice de criminalidade ela é de nove; no bang-bang brasileiro ela é de 23; e no México, 24. Portanto, o índice de criminalidade da Venezuela é o dobro do verificado no Brasil ou no México!
“O que aconteceu?” – pergunta Briceño. Ele responde: “A hipótese que mantenho é a de que os primeiros mortos por cada 100 mil habitantes têm a mesma explicação que teriam no México ou Brasil. Pobreza, desigualdade... Mas os outros vinte e tantos têm que ver com a quebra do pacto social levada a cabo com este governo. Quando o presidente faz um minuto de silêncio pelo guerrilheiro Raúl Reyes, está criando uma desordem na sociedade.”
Um morador da favela Petare – com um milhão de habitantes (1/3 da população de Caracas), administrada por um chavista e palco de atuação dos primeiros médicos cubanos chegados ao país – assegurou ao jornalista que nos finais de semana são ali assassinadas até 30 pessoas, e que só no ano passado houve 700 mortes violentas!
Enquanto cresce a violência, continua a despencar a popularidade de Chavez. Segundo o instituto de pesquisas Datos, em levantamento feito em fevereiro último junto a dois mil habitantes da área urbana, Chávez obteve 34% de aprovação, nove pontos a menos do obtido por ocasião do referendo de 2 de dezembro de 2007.
Marcadores:
Hugo Cháves,
Jornal El País,
Venezuela
O sapo e o escorpião
A atual crise migratória entre a Espanha e o Brasil faz lembrar a fábula do sapo que, convencido pelo escorpião a transportá-lo à outra margem de um rio, decidiu fazê-lo sob a condição de não ser picado. Acontece que no meio da travessia o escorpião o pica. Interpelado do porquê rompera o pacto, o escorpião simplesmente lhe respondeu: “Está na minha natureza”.
Do mesmo modo, por mais que existam acordos bilaterais e os respectivos trâmites sejam consagrados, está na natureza dos governos de esquerda – como é atualmente o caso tanto na Espanha como no Brasil – o condão de tornar difíceis todas as coisas, até mesmo as mais simples. “Si se puede complicar, para qué simplificar?” – dizem com humor os hispanos. Como sempre, quem paga são os cidadãos.
Do mesmo modo, por mais que existam acordos bilaterais e os respectivos trâmites sejam consagrados, está na natureza dos governos de esquerda – como é atualmente o caso tanto na Espanha como no Brasil – o condão de tornar difíceis todas as coisas, até mesmo as mais simples. “Si se puede complicar, para qué simplificar?” – dizem com humor os hispanos. Como sempre, quem paga são os cidadãos.
domingo, 16 de março de 2008
Colômbia: não baixar a guarda!
Os mandatários da Venezuela e do Equador – apanhados em flagrante delito no crime de colaboração com os terroristas das FARC –, com o mesmo despudor com que trataram a Colômbia durante a recente crise que os estremeceu, acenam agora para ela como se fossem excelentes amigos que nunca tiveram qualquer desentendimento. Ou que se por acaso o tiveram, dele haviam perdido a memória.
Ora, como acreditar em palavras e atitudes de quem não respeita nem sequer o tempo – calmo e sóbrio dissipador de rusgas – para, sem renunciar a seus propósitos, transformar a carranca em sorriso e estender, em atitude de amizade, a mesma mão que há pouco empunhava um punhal?
É óbvio que a guinada repentina de Hugo Chávez e Rafael Correa – que por conveniência deve ser mais cauto – é mais uma prova de que eles foram os grandes perdedores para a Colômbia. Não só no terreno militar e diplomático, mas sobretudo no plano muito mais vasto da opinião pública, tanto colombiana como internacional. E que precisam portanto com urgência mudar de jogo.
Situação que lhes complica mais uma vez a vida. Se o plano inicial de Chávez era a vitória no referendo de 2 de dezembro – que modificasse a Constituição e o consolidasse no poder, para continuar impulsionando Correa no Equador e Morales na Bolívia –, sua derrota deixou manco o tripé. Ainda mais quando se considera que embora Correa e Morales tenham conseguido mudar a Constituição, o êxito deste último ficou por enquanto só no papel, tais as resistências internas que vem encontrando. E que começam a assomar-se também no Equador.
Um dado curioso em tudo isso é que, ao mesmo tempo em que nesses três países se lançavam referendos para modificar a Constituição e perpetuar os respectivos mandatários, no Brasil havia jeitosas sondagens a respeito de um terceiro mandato de Lula... E pari passu o secretário-geral do Itamaraty e ideólogo da política externa brasileira, Samuel Pinheiro Guimarães, fazia em Lima uma conferência em que apoiava os aludidos referendos – com a massa da população previamente trabalhada por programas assistenciais de índole eleitoreira – apresentando-os como se fossem a mais lídima expressão da democracia.
Isso, que fazia pressagiar um plano geral para o continente, foi posto de lado a partir da derrota de Hugo Chávez no referendo de 2 de dezembro. Ele se auto-convidou então a desempenhar junto às FARC – et pour cause – o papel de mediador para a libertação de reféns. Até o momento em que sobreveio a crise decorrente da morte de seu principal interlocutor – e vítima, pois foi uma ligação de Chávez que possibilitou sua localização –, o narco-guerrilheiro farcista Raúl Reyes.
Quais serão o enredo e o desenvolvimento da próxima cena no teatro de operações da América Latina? Seus atores estão no palco, atentos às palavras do soprador. Este ditará atitudes de distensão ou de carranca?
Seja como for, ele só agirá em conformidade com as reações do público, em particular do colombiano, o qual jamais poderá esquecer que uma porção expressiva de seus membros – irmãos, pais, filhos ou parentes – continua seqüestrada nas selvas, agrilhoada e tratada como animais, não sabendo sequer se sairá viva. Cumpre a este público não baixar a guarda!
Ora, como acreditar em palavras e atitudes de quem não respeita nem sequer o tempo – calmo e sóbrio dissipador de rusgas – para, sem renunciar a seus propósitos, transformar a carranca em sorriso e estender, em atitude de amizade, a mesma mão que há pouco empunhava um punhal?
É óbvio que a guinada repentina de Hugo Chávez e Rafael Correa – que por conveniência deve ser mais cauto – é mais uma prova de que eles foram os grandes perdedores para a Colômbia. Não só no terreno militar e diplomático, mas sobretudo no plano muito mais vasto da opinião pública, tanto colombiana como internacional. E que precisam portanto com urgência mudar de jogo.
Situação que lhes complica mais uma vez a vida. Se o plano inicial de Chávez era a vitória no referendo de 2 de dezembro – que modificasse a Constituição e o consolidasse no poder, para continuar impulsionando Correa no Equador e Morales na Bolívia –, sua derrota deixou manco o tripé. Ainda mais quando se considera que embora Correa e Morales tenham conseguido mudar a Constituição, o êxito deste último ficou por enquanto só no papel, tais as resistências internas que vem encontrando. E que começam a assomar-se também no Equador.
Um dado curioso em tudo isso é que, ao mesmo tempo em que nesses três países se lançavam referendos para modificar a Constituição e perpetuar os respectivos mandatários, no Brasil havia jeitosas sondagens a respeito de um terceiro mandato de Lula... E pari passu o secretário-geral do Itamaraty e ideólogo da política externa brasileira, Samuel Pinheiro Guimarães, fazia em Lima uma conferência em que apoiava os aludidos referendos – com a massa da população previamente trabalhada por programas assistenciais de índole eleitoreira – apresentando-os como se fossem a mais lídima expressão da democracia.
Isso, que fazia pressagiar um plano geral para o continente, foi posto de lado a partir da derrota de Hugo Chávez no referendo de 2 de dezembro. Ele se auto-convidou então a desempenhar junto às FARC – et pour cause – o papel de mediador para a libertação de reféns. Até o momento em que sobreveio a crise decorrente da morte de seu principal interlocutor – e vítima, pois foi uma ligação de Chávez que possibilitou sua localização –, o narco-guerrilheiro farcista Raúl Reyes.
Quais serão o enredo e o desenvolvimento da próxima cena no teatro de operações da América Latina? Seus atores estão no palco, atentos às palavras do soprador. Este ditará atitudes de distensão ou de carranca?
Seja como for, ele só agirá em conformidade com as reações do público, em particular do colombiano, o qual jamais poderá esquecer que uma porção expressiva de seus membros – irmãos, pais, filhos ou parentes – continua seqüestrada nas selvas, agrilhoada e tratada como animais, não sabendo sequer se sairá viva. Cumpre a este público não baixar a guarda!
Marcadores:
Bolívia,
Colômbia,
Equador,
Evo Morales,
FARC,
Hugo Cháves,
Lula,
Venezuela
sábado, 15 de março de 2008
LIVRO NEGRO DA REVOLUÇÃO FRANCESA
O blog da Federação dos Estudantes da Aquitânia publicou, em 13 de fevereiro de 2008, entrevista com o renomado jornalista, ensaísta e historiador Jean Sévillia, autor de várias obras e um dos co-autores do Livro Negro da Revolução Francesa (Ed. du Cerf, janeiro de 2008, 882 pp). Segue abaixo a tradução.
– Qual foi a sua contribuição para esse livro?
– Há dois anos, encontrando-me com o Pe. Renaud Escande, idealizador do futuro Livro Negro da Revolução Francesa, ele me perguntou que contribuição eu poderia dar à obra. Logo em seguida tive uma idéia, posta em execução num texto, à maneira de esboço de resposta para aquela pergunta: “Será comemorado o terceiro centenário da Revolução?”. Na época eu estava mergulhado na preparação de meu livro Moralmente correto, publicado em 2007, e impressionado pela amplitude das mudanças da sociedade e das mentalidades a que assistimos no decurso das últimas décadas. Projetando o mesmo espaço-tempo não mais para o passado, mas para o futuro, disse para comigo que seria interessante interrogar sobre o que restará da Revolução Francesa em 2089. Pergunta que pode ser entendida em duplo sentido: o que restará da Revolução, mas também o que restará da França. A conjectura é um exercício arriscado: tantas previsões, felizes ou infelizes, foram frustradas... Mas não é proibido interrogar, a partir do momento em que se sabe que certos fatos têm conseqüências iniludíveis.
– Que continuidade existe entre este e seus livros anteriores?
– Sou simultaneamente jornalista, ensaísta e historiador. Minha contribuição ao Livro Negro da Revolução Francesa inscreve-se nesta perspectiva: o historiador trabalhou sobre 1789, o jornalista mergulhou em suas lembranças de 1989, e o ensaísta tentou refletir sobre 2089.
– Qual é a idéia-base deste livro?
– A despeito do fato de que todos os historiadores sérios, mesmo os ardentemente republicanos, são unânimes em que a Revolução Francesa apresenta um problema, a imagem oficial – a dos livros escolares do primário e do secundário, a da televisão – mostra os acontecimentos de 1789 e dos anos seguintes como o momento da fundação de nossa sociedade, maquiando tudo aquilo que se quer esconder: o Terror, a perseguição religiosa, a ditadura de uma minoria, o vandalismo artístico etc. Hoje, elogia-se 1789 e nega-se 1793. A Declaração dos Direitos do homem é benquista, mas não a lei dos suspeitos. Mas, como separar 1789 de 1793 quando se sabe que o fenômeno terrorista começa a partir de 1789? Para responder à pergunta, a idéia-base do Livro Negro da Revolução Francesa é mostrar essa face da realidade que nunca é mostrada, e lembrar que houve sempre uma oposição à Revolução Francesa, mas sem trair a História. Queira-se ou não, goste-se ou não da Revolução, é um mapa da História da França e dos franceses. Não poderá ser apagado: cumpre ao menos compreendê-lo.
– Este livro, do qual participaram diversos professores, mostra que o mundo universitário está em vias de mudar?
– O mundo universitário mudou há muito tempo. Lembrem-se do Bicentenário [da Revolução Francesa, em 1989]: de Pierre Chaunu a Jean Tulard, de Reynald Secher aos historiadores estrangeiros que se descobriam então, tal como Alfred Cobban, todos os grandes nomes da pesquisa histórica situavam-se, em graus diversos, numa posição de crítica em relação à Revolução Francesa. É preciso lembrar o papel essencial e paradoxal de François Furet: este homem de esquerda, ligado ao liberalismo mas nunca à contra-revolução, participou fortemente do naufrágio do mito revolucionário nos meios intelectuais. Mas ele não é feito senão de amigos! Depois de 1989, contudo, passou-se uma geração. De onde a idéia, com este Livro Negro, de retomar a questão com novas colaborações, com contribuições em parte novas.
– No quê uma obra sobre a Revolução Francesa ainda pode interessar os franceses de hoje?
– Numa sociedade que se defronta com uma verdadeira depressão cultural, existe ainda um público cultivado e que lê. Se o Livro Negro chegar a esse público, já estará bem. Observa-se há anos um verdadeiro fascínio pela Idade Média. Nas multidões que vagueiam pelos castelos do [vale do] Loire ou de Versailles, ou na voga da música antiga, encontra-se um interesse pela civilização pré-revolucionária. Chegará o momento em que esse público verá de frente a história da Revolução, pronto a ser modificado em suas certezas. Mas, a se crer na receptividade que encontrei com meu livro Historicamente correto, uma obra que atingiu sem dúvida meio milhão de leitores, há muita gente na França pronta para objetar contra alguns mitos históricos estabelecidos. Espero que o Livro Negro da Revolução Francesa, do qual não sou senão uma das múltiplas vozes, contribuirá para isso.
– Qual foi a sua contribuição para esse livro?
– Há dois anos, encontrando-me com o Pe. Renaud Escande, idealizador do futuro Livro Negro da Revolução Francesa, ele me perguntou que contribuição eu poderia dar à obra. Logo em seguida tive uma idéia, posta em execução num texto, à maneira de esboço de resposta para aquela pergunta: “Será comemorado o terceiro centenário da Revolução?”. Na época eu estava mergulhado na preparação de meu livro Moralmente correto, publicado em 2007, e impressionado pela amplitude das mudanças da sociedade e das mentalidades a que assistimos no decurso das últimas décadas. Projetando o mesmo espaço-tempo não mais para o passado, mas para o futuro, disse para comigo que seria interessante interrogar sobre o que restará da Revolução Francesa em 2089. Pergunta que pode ser entendida em duplo sentido: o que restará da Revolução, mas também o que restará da França. A conjectura é um exercício arriscado: tantas previsões, felizes ou infelizes, foram frustradas... Mas não é proibido interrogar, a partir do momento em que se sabe que certos fatos têm conseqüências iniludíveis.
– Que continuidade existe entre este e seus livros anteriores?
– Sou simultaneamente jornalista, ensaísta e historiador. Minha contribuição ao Livro Negro da Revolução Francesa inscreve-se nesta perspectiva: o historiador trabalhou sobre 1789, o jornalista mergulhou em suas lembranças de 1989, e o ensaísta tentou refletir sobre 2089.
– Qual é a idéia-base deste livro?
– A despeito do fato de que todos os historiadores sérios, mesmo os ardentemente republicanos, são unânimes em que a Revolução Francesa apresenta um problema, a imagem oficial – a dos livros escolares do primário e do secundário, a da televisão – mostra os acontecimentos de 1789 e dos anos seguintes como o momento da fundação de nossa sociedade, maquiando tudo aquilo que se quer esconder: o Terror, a perseguição religiosa, a ditadura de uma minoria, o vandalismo artístico etc. Hoje, elogia-se 1789 e nega-se 1793. A Declaração dos Direitos do homem é benquista, mas não a lei dos suspeitos. Mas, como separar 1789 de 1793 quando se sabe que o fenômeno terrorista começa a partir de 1789? Para responder à pergunta, a idéia-base do Livro Negro da Revolução Francesa é mostrar essa face da realidade que nunca é mostrada, e lembrar que houve sempre uma oposição à Revolução Francesa, mas sem trair a História. Queira-se ou não, goste-se ou não da Revolução, é um mapa da História da França e dos franceses. Não poderá ser apagado: cumpre ao menos compreendê-lo.
– Este livro, do qual participaram diversos professores, mostra que o mundo universitário está em vias de mudar?
– O mundo universitário mudou há muito tempo. Lembrem-se do Bicentenário [da Revolução Francesa, em 1989]: de Pierre Chaunu a Jean Tulard, de Reynald Secher aos historiadores estrangeiros que se descobriam então, tal como Alfred Cobban, todos os grandes nomes da pesquisa histórica situavam-se, em graus diversos, numa posição de crítica em relação à Revolução Francesa. É preciso lembrar o papel essencial e paradoxal de François Furet: este homem de esquerda, ligado ao liberalismo mas nunca à contra-revolução, participou fortemente do naufrágio do mito revolucionário nos meios intelectuais. Mas ele não é feito senão de amigos! Depois de 1989, contudo, passou-se uma geração. De onde a idéia, com este Livro Negro, de retomar a questão com novas colaborações, com contribuições em parte novas.
– No quê uma obra sobre a Revolução Francesa ainda pode interessar os franceses de hoje?
– Numa sociedade que se defronta com uma verdadeira depressão cultural, existe ainda um público cultivado e que lê. Se o Livro Negro chegar a esse público, já estará bem. Observa-se há anos um verdadeiro fascínio pela Idade Média. Nas multidões que vagueiam pelos castelos do [vale do] Loire ou de Versailles, ou na voga da música antiga, encontra-se um interesse pela civilização pré-revolucionária. Chegará o momento em que esse público verá de frente a história da Revolução, pronto a ser modificado em suas certezas. Mas, a se crer na receptividade que encontrei com meu livro Historicamente correto, uma obra que atingiu sem dúvida meio milhão de leitores, há muita gente na França pronta para objetar contra alguns mitos históricos estabelecidos. Espero que o Livro Negro da Revolução Francesa, do qual não sou senão uma das múltiplas vozes, contribuirá para isso.
Assinar:
Postagens (Atom)