quinta-feira, 6 de março de 2008

O Farcismo e seus aliados

Imaginemos uma aldeia em recôndita zona rural. Seus membros são atacados, seqüestrados e mortos por bandidos que depois se refugiam em densos matagais da região. Os donos das terras onde estão esses matagais, ou desconhecem aquela ingrata presença, ou conhecem e nada podem fazer, ou por fim, conhecem e nada querem fazer para impedi-la.

Após muitos seqüestros, extorsões e mortes, a comunidade se reúne e decide pôr fim àqueles desmandos. Imaginemos ainda que no local o contingente da polícia é pequeno, seus agentes têm família e temem se meter com aquela gente. Não mais existindo para quem apelar, os aldeões se organizam e “limpam a área”.

Qual deveria ser, nessa hipotética circunstância, a reação dos donos dos matagais? De protesto por terem sido invadidos sem prévia autorização? Ou de gratidão por se terem visto livres dos bandidos?

Essa imensa aldeia é a Colômbia. Com seus mais de 40 milhões de habitantes, quase não existe família que não tenha sido dilacerada por algum crime das FARC ao longo dos últimos 40 anos. Os governos não as combatiam e, como fez o de Andrés Pastrana, antecessor de Uribe, as FARC foram beneficiadas com um “santuário” do tamanho do Estado do Rio de Janeiro em pleno coração da Colômbia. A partir dali seus membros praticavam os piores crimes e depois regressavam, sem que o exército pudesse intervir.

Tendo o governo Uribe acabado com essa regalia, os guerrilheiros não tiveram outra alternativa senão adentrar-se no mais profundo das selvas da Colômbia, ou ir para a Venezuela e o Equador. Foi neste último país que as FARC perderam Raúl Reyes, sob certo ângulo o mais importante de seus membros.

Chamou contudo atenção a falta de reação imediata do presidente Rafael Correa diante do acontecido. Ele esperou que seu aliado e patrão ideológico Hugo Chávez o fizesse, para depois atuar em total consonância e mimetismo com ele. Tanto no campo diplomático como no militar, agiu como se o Equador não fosse um país soberano.

Em qual das duas situações a soberania de um país é mais ferida: quando tropas de outro país vizinho e amigo penetram, momentaneamente e em legítima defesa, em dois quilômetros recônditos de seu território, sem prejuízos físicos ou materiais para seus habitantes, mas tão-só para agir contra um terrível inimigo que ali se embrenhou? Ou quando o presidente desse país pauta servilmente sua atuação em consonância com o presidente de outro país?

A pergunta toma mais propósito quando este último não é uma pessoa dotada de saber, de bom senso, que goza de merecido prestígio junto à opinião pública de seu país. A este título ele poderia ser um bom conselheiro a ser ouvido, e até imitado. Mas trata-se de um desequilibrado e despótico, sem apoio dos seus e, ainda mais, com o condão de envenenar o relacionamento interno e externo de diferentes nações.

Hugo Chávez, com efeito, não só se intrometeu na vida interna de outras nações que estavam em conjunturas políticas difíceis, mas se assenhoreou de tal modo do governo de uma delas – a Bolívia –, que ameaçou os bolivianos com um banho de sangue caso eles se insurgissem contra as pretensões ditatoriais de Evo Morales e o derrubassem!

E ele portanto não tinha por que meter o nariz – aqui, sim, a expressão é apropriada – numa questão entre a Colômbia e o Equador. Questão, ademais, que não era de fundo entre os dois países, mas surgida em função de um inimigo que se internara nas selvas equatorianas para dali continuar ordenando ataques mortais contra o exército e a população colombiana. E também – quem sabe? – combinar lances de propaganda com Hugo Chávez, Piedad Córdoba, além de outros aliados das FARC...

Se o atual governo equatoriano se despojasse dos preconceitos do sectarismo vermelho e tivesse todo o zelo em preservar a soberania do país, deveria, pelo contrário, ser agradecido à Colômbia. Pois esta, além de em nenhum momento ter agredido o Equador, atuou pelo contrário para a salvaguarda dos princípios democráticos em nome dos quais o governo equatoriano e os da região afirmam reger-se.

Mas infelizmente ele não agiu assim. Foi hostil ao benfeitor e subserviente ao ditador venezuelano. Seguiu-lhe o gesto de romper relações com a Colômbia e, à imitação de sua atitude perigosa e provocadora, enviou tropas à sua fronteira.

Por que o presidente Rafael Correa, ao reclamar da invasão das tropas da Colômbia, não reclamou também das FARC, que desrespeitaram a soberania do território no qual se haviam embrenhado? A menos que elas estivessem ali com conhecimento e aprovação do governo do Equador...

Falam neste sentido documentos “tremendamente reveladores” encontrados pelo exército colombiano nos computadores dos guerrilheiros (altamente informatizados!), em especial no do chefe Raúl Reyes. Tais documentos tiveram sobre a opinião pública o efeito de uma bomba, mais espetacular do que as que vitimaram aquele narco-guerrilheiro e seus companheiros de crimes. Pois conferem às ações das FARC uma extensão inter-governamental.

Segundo tais documentos, entre outras coisas, Chávez destinou 300 milhões de dólares à guerrilha colombiana. E o ministro do Interior do Equador, Gustavo Larrea, de codinome “Juan”, visitou os guerrilheiros das FARC em nome do presidente Rafael Correa, para intermediar posteriores contactos entre o governo equatoriano e as FARC! Mais. Entre outras medidas que “Juan” deveria adotar, estava a de providenciar a substituição das forças policiais equatorianas lotadas na região onde atuavam os guerrilheiros, por outras corrompidas que lhes facilitassem o serviço.

Esses “tremendamente reveladores” documentos revelam assim alguns aspectos de uma imensa conjuração farcista, para a qual concorrem possantemente os atuais governos da Venezuela e do Equador.

Aliados à Bolívia e vistos com simpatia ou displicência – para dizer pouco – por outros governos, eles parecem desejar, pela força das armas, lançar-se a uma nova aventura, a fim de tentar operar no continente uma mudança sócio-político-econômica que não conseguiram obter pela via das reformas. É esta, aliás, a explicação mais plausível para todo o arsenal bélico que Hugo Chávez vem acumulando.

2 comentários:

Paulo Roberto Campos disse...

Achei muito precisa e pertinente sua análise política do affaire Raul Reyes.
Causa enorme estranheza o fato do governo brasileiro apenas condenar a incursão do exército colombiano em território equatoriano e não condenar a incursao das FARC naquele território. Diga-me com quem és tolerante e dir-te-ei quem és...
O governo petista também está sendo muito tolerante com as ameaças que Chavez vem fazendo de entrar em confronto militar com a Colômbia. Vingança de Chavez contra aqueles que mandaram para a eternidade seu “muy amigo” Raúl Reyes?
Em todo caso, não deixa de ser “muy saboroso” o fato de ter sido um telefonema do próprio Chavez a seu amigo Raul Reyes que serviu ao exército colombiano localizar o chefao das FARC...
Descobriram sinais de um telefone via satélite usado — em ocasiões raríssimas e de emergência — por Raul Reyes.
Segundo a “Rádio (colombiana) Cadena Nacional”, “relatórios da inteligência” revelaram que, no dia 27 de fevereiro, um telefonema de Chávez para felicitar Raul Reyes pelo êxito no plano de entrega de 4 sequestrados pelas FARC...
Transcrevo trecho dessa informação publicada no “O Estado de São Paulo” (6-3-08):
“Emocionado pela libertação dos seqüestrados, Chávez ligou para Reyes para informar-lhe que tudo tinha ocorrido bem”, noticiou a RCN, citando “fontes militares colombianas de alto escalão”. Os serviços de inteligência rastrearam a ligação e descobriram que Reyes estava em território colombiano, perto da fronteira com o Equador. O bombardeio ocorreu na madrugada de sábado, depois que o líder rebelde e seu grupo cruzaram a fronteira equatoriana. “É uma ironia que um telefonema de Chávez nos tenha permitido matar Reyes”, disse uma fonte da inteligência.
A rádio RCN também informou, citando uma fonte da inteligência, que o líder máximo das Farc, Manuel Marulanda, mais conhecido como Tirofijo, “encontra-se refugiado na Venezuela” e está doente. Segundo a emissora, Chávez ordenou o envio de soldados à fronteira com a Colômbia para proteger Marulanda e evitar que ele seja atacado”.
Agora a gente entende os motivos que levaram Chavez a deslocar enorme contingente militar para a fronteira: impedir que o exército colombiano entre na Venezuela e acabe por mandar também para a mesma eternidade onde encontra-se o facínora Raul Reyes.

Stuart Linhares disse...

Concordo em gênero, número e grau, é uma mentira atrás da outra o que esses governantes divulgam. O que eles pretendem é fundar a URSSA (União das Repúblicas Socialistas Sul Americana) o governo e a mídia nacional se cala. Nos meios de comunicação a versão apresentada com destaque é somente do lado esquerdo, do lado direito somente um resumo.